sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Memórias de um doble chapa V

Mi MADRE

Minha Mãe! Eu sou suspeito para elogia-la. Ela era muito especial. Não era do tipo de ficar lambendo a cria, meu queridinho, meu amorzinho, pois era uma camponesa trabalhadora. Seu amor não era coisa de toque mas de senti-lo em nossa alma, pela sua solicitude, pela sua preocupação com o nosso bem estar. Papai as vezes sumia em função de suas atribuições na policia rural, investigações, incursões, etc. No início não tínhamos eucaliptos em casa para fazer madeira para manutenção de cercas e fazer lenha. Lembro-me que um vizinho nos cedia um mato de eucaliptos para abastecer-nos de lenha. Mamãe juntava a filharada pegava um machado e cortava os galhos secos, amarrávamos e prendíamos na chincha da égua marchadeira arrastando até nossa casa. A Mãe, se o pai não se encontrava, ela plantava, arava a terra, capinava de enxada, cortava lenha para o fogão a machado, era uma guerreira. Não me lembro de tê-la visto ir a uma diversão, nem a um baile, porque não tinha roupa adequada. Papai é que levava as filhas nos bailes. Quando nos levava na propriedade da comadre Estefânia para comermos pitanga, parecia uma galinha com seus pintinhos. Mas era nossa diversão máxima comer pitanga no mato, mamãe comia poucas, ficava o tempo todo colhendo para levar e fazer seu licor para as visitas. Visitava muito nossa tia Albertina (Bita) que era sua irmã e terminou de se criar em sua casa em função da orfandade, o marido de tia Bita era primo de papai por isso esses primos eram como irmãos. Pertinho da casa da tia Bita morava a tia Mindoca, irmã de papai, sempre sorridente sabia agradar uma criança, na outra extremidade que era o pequeno campo da vovó Celina morava a tia Felizarda esposa do tio Oriovaldo irmão de papai. As três casas reuniam um bando enorme de primos pois as famílias eram todas numerosas. Os demais primos praticamente não os conhecia pois moravam longe. Quando mamãe os visitava ia de charrete com as filhas e nos garotos tínhamos de ficar em casa, pois não havia lugar na charrete. Minha irmã mais velha Francisca (Chica) estudava no colégio interno de freiras o que custava caro para papai, quando ela terminou foi a mais moça: Francelina (França). A Irmã do meio Eny (Negra) fez um curso de costureira. Mamãe fazia doce em um tacho de cobre no fogo de chão. Certa feita em nosso cercado (roça) colheu-se uma quantia enorme de melancias, ela teve a ideia de fazer melado, cada 20 litros de caldo de melancia transformava-se em evaporando-se transformava-se em 2 litros de melado. Mas era bom! Como dizia um amigo: - bom como dinheiro achado dia de chuva dentro de um saquinho plástico. Agora se escandalizem! Dia de marcação era uma festa! Marcavam-se os terneiros com uma marca quente de ferro em Brasa. Era e é um instrumento de identificação do proprietário do animal. Junto com um sinal na orelha feito a faca, esse sinal também servia de identificação. Os terneiros machos ainda sofriam mais pois eram castrados. Os testículos eram jogados na fogueira onde se aquecia a marca, depois jogados em um recipiente com salmoura e a seguir degustados. Mamãe fazia uma tortilha com rodelas do ditos cujos, ela não comia, mas nós nos fartávamos. Por que o espanto? Comer testículos bovinos assados na brasa é um costume tradicional nas pradarias do sul do Brasil...


Na próxima sexta-feira, segue mais recordações de um doble chapa.
                                                                           Escrito por Nelcy Cordeiro











Até a próxima se Deus quiser...

 Anajá Schmitz

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Uma pausa para a saudade....


Hoje vamos viajar na poesia e na decoração de lindos blogs que visitei. Quando se fala em tapera me vem a memória a casa da Dona Chinoca e do falecido Dudu. Essa morada era em Solidão-RS, eramos vizinhos. Para ir para praia do Farol da Solidão, tínhamos que passar em frente a casa dela. Ainda está lá a espera de quem passa, uma baita figueira.  Sempre parávamos a sombra daquela frondosa árvore para comer figo. Me dava uma tristeza infinita mirar aquele abandono. Como tantos, eles se foram para cidade deixando para traz sua vida no campo, levando na bagagem somente as lembranças. Lá ficou solenemente a história da família que ali viveu, e o restos, abandonados campo afora. 

Poesia Tapera de Chico Ribeiro.

Sem porta e sem janelas, da cumeeira,
Tirou-lhe o vento há muito o santa-fé;
É o esqueleto - o que sobrou pra história
Do velho rancho - é o esqueleto em pé!

A dois passos - a clássica figueira,
Com seus poemas de sons, pela ramada;
Lembrando alguém, que vive pela glória
De recordar saudades e mais nada...

E o resto! O resto... é morto, não existe,
O próprio chão da grama se ressente,
Nem um palanque se descobre mais...
Apenas a figueira inda resiste:
- Há de ficar... pra transmitir à gente,
Do extinto rancho, amigo, os funerais!...

terça-feira, 29 de julho de 2014

Presentes de BH


Olá, queridos amigos e amigas. Hoje venho compartilhar mais uma grande alegria. Esse espaço tem trazido muitas felicidades e grandes amizades. Um casal de Belo Horizonte, leitor de nosso blog, nos presenteou com muito carinho e lindos mimos. Outro dia postei nossa plantação de pimentas e esse adorável casal, vendo nosso gosto pela pimenta, nos enviou um molho de pimenta espetacular, feito em sua região e também doces regionais. Junior, do blog JLX Consultoria, e sua esposa Lucélia, vocês não imaginam nossa felicidade ao receber esse carinho. Obrigada! E assim o blog Minha vida de campo, nos proporcionou conhecer um lindo casal e também a certeza de mais uma grande amizade.







O molho de pimenta virou parceiro do Alfredo. Diz ele que é melhor que o molho de pimenta TASCO. Até no doce ele experimentou! 

Até a próxima se Deus quiser...

 Anajá Schmitz


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Memórias de um doble chapa IV


O RANGO
 Até hoje tenho saudades daquela comidinha da mamy. Era feijão e arroz com guisado de carne na maior parte das vezes, às vezes massa, na época de frutos da lavoura então era enriquecido. Feijão miúdo, moranga, milho verde, aipim. A gente gastava tanta energia nas brincadeiras que na hora das refeições estávamos varados de fome.
Na entrada do inverno carneávamos uma vaca e um porco. Lá estava o Seu Aires ajudando. Tinha uma vantagem carnear na entrada do inverno: A quase ausência de moscas. Fazia-se Charque de toda a carne para conserva-la, Varas de eucaliptos cheias de mantas de charque secando ao sol, após absorverem grande quantidade de sal, era o freezer da época. E varais enormes de taquaras (bambu) de linguiça de carne mista, porco e gado. Contavam que um vizinho colocou uma lata de banha suína a esfriar e esqueceu, seu cão com fome comeu a matade da lata de banha, o que o deixou ansiado do estômago, atiçou o cão nos porcos que haviam furtivamente invadido a sua roça, o cão deitado, mal do estomago, olhou para os porcos e virou a cara para o lado enjoado, não podia nem enxergar porco na sua frente por causa da banha que havia comido.
A comida dos bem pobres era canjica de milho socada no pilão. Minha avó paterna ficou viúva jovem com uma dúzia de filhos, criou-os com milho verde abóbora, batata doce, feijão miúdo. O prato do dia quase que invariável era canjica de milho com graxa bovina e sal, normalmente sem carne. E leite, ninguém era privado deste alimento, em último caso alguém emprestava uma vaca para a sua obtenção. As sobremesas eram doces de batatas, doce de abóbora, de leite, ambrosia. Etc. Também era sobremesa leite com alguma coisa: com batata cozida ou assada, com milho verde cozido, com farinha de mandioca, colava-se de molho no leite e esperavam-se alguns minutos para que ela inchasse, para evitar inchar na barriga. Visita de marmanjo era chimarrão com o velho a sombra do cinamomo, a chaleira preta, volta e meio tinha que retornar ao fogão para requentar a água. Garrafa térmica ainda não existia, quando a inventaram uma senhora viúva. A Rosa do finado Galdino, casando pela segunda vez com meu tio aos 70 anos, ganhou de bodas uma garrafa térmica, não conhecia plástico, e colocou-a em cima do fogão a lenha, ao dar-se por conta só restava a ampola de pé e uma plasta de plástico derretido na base. Visita de mulheres era a charla (prosa) com a mãe e irmãs moças, regada a mate doce na cuia, com bolo, pão caseiro. E o tradicional café da tarde. Um cálice de licor de pitanga, feito em casa é claro. Era costume as visitas deixarem um restinho no cálice, diziam que era de cerimonia. Quando as visitas saiam, nós tomávamos esses restos um por um, um piá do campo dava um olho por algo doce, e aquele licor da mãe era um néctar dos Deuses. Quando a visita vinha passar o dia por certo uma galinha iria sucumbir ao torque do pescoço. Contavam que um sujeito passou mais de trinta dias na casa de um compadre. Todos os dias morria uma galinha para as refeições. Lá pelas tantas o visitante falou que no dia seguinte iria embora, o que causou alivio ao dono da casa que desabafou irritado com aquela visita interminável. Também já comeste todas as minhas galinhas! Sobrou somente o galo. E o cara de pau respondeu. Há! Mas ainda temos o galo? Vou ficar mais um dia!









Na próxima sexta-feira, segue mais recordações de um doble chapa.
                                                                           Escrito por Nelcy Cordeiro


Até a próxima se Deus quiser...

 Anajá Schmitz

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Abrindo o apetite

Olá! Espero que todos estejam bem por ai. Aqui no campo estamos encorrugidos de frio. Nesse tempo ficamos igual a urso hibernando, e comendo muito. Na rua, somente depois das 10 horas da manhã até as 4 horas da tarde. Depois desce um ar gelado que enrijece as juntas. Mas o melhor de tudo é ficar ao redor do fogão a lenha, cozinhando. Na verdade só faço um tipo de prato. Todos aqui em casa, só querem carreteiro. Pra mim é maravilhoso. É fácil de fazer e suja somente uma panela. De tanto fazer virei especialista no carreteiro. Até eu não resisto e acabo comendo demais.   





Essa panela de barro tem história. Algum tempo atrás fomos fazer uma viagem. Saímos sem destino, costeando o mar.  Passamos por Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e quando chegamos em Espírito Santo. Me apaixonei pelas panelas de barro. Imagina comprei tudo que pude carregar. Voltei numa felicidade com minhas panelas. Alfredo vinha que nem cavalo quando solta a rédea, vinha amil pra casa. Quando vimos tinha na BR 101 um quebra mola. Imaginem! A caminhonete saltou aquela barreira. Foi um pandemônio. Era coisas em cima de nós. E minhas panelas? Meu Jesus! Quebrou minhas panelas. Mas não foi só eu quem ficou no prejuízo, também quebraram as molas da caminhonete. Mas não coloquei fora, deixei  no jardim para nos lembrar da viagem.

Muitos de vocês devem conhecer Arroz Carreteiro, é muito fácil de fazer. Esse prato é muito apreciado aqui no Rio grande do Sul. 
Ingredientes

1/2 de carne; sempre compro peito ou agulha sem osso. É uma carne de segunda e tem um gosto muito bom. Tem que ter gordura para ficar bom.
sal a gosto;
1/2 cebola;
1/2  tomate;
1 lasca de pimentão;
01 pimenta sem semente;
tempero verde;
01 xícara de arroz;
03 xícaras de água;

Modo de fazer
Cortar a carne em cubo, e colocar  cebola, tomate e pimentão. Deixe cozinhar até secar a aguá e dar uma queimadinha. Prove a carne se estiver macia coloque o arroz e a água, deixe ferve e abaixe  o fogo.










Até a próxima se Deus quiser...

 Anajá Schmitz

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Memorias de um doble chapa III

A VIZINHANÇA
Um tio muito racista por certo, desaprovou a compra do campo por meu pai, que irás fazer no meio dessa negrada, exclamou! Mas meu velho era amigo de todos eles. Perto da propriedade havia varias pequenas propriedades de descendentes de escravos. O descendente do senhor de escravos, um solteirão deixou-lhes de herança a fazenda que foi partilhada, cada um ficando um lote em torno de 50 Hectares. Um deles, Pedro Brum, compadre de papai, herdou seu lote e a casa Grande de Pedra com paredes de 1 m de espessura, mangueiras de pedra e potreiros de pedra. Morou toda sua vida ali, quando já estava velho intentou de encontrar algum possível tesouro escondido entre as paredes de pedra e começou a desmancha-las, o comentário geral é que estava caduco. Passamos a vida inteira, chamando as pretas velhas de tias e pedindo a benção. Os pretos faziam um salão de festas com paredes e telhado de galhos de eucaliptos, ao qual davam o nome de caramanchão, e ali faziam um grande baile da comunidade deles. O local era na tia Zezé divisa com nosso campo. Seus filhos tiravam leite e escondiam em garrafas dentro da sanga (Riacho) para beber depois, pois ela dava só um copinho pra cada um, e resto era pra fazer queijo, os coitados dos crioulos viviam sempre com fome, o maior almoçava em casa e saia correndo para almoçar de novo em nossa casa. Um deles o Domingos almoçava lá em casa e saia correndo e ia almoçar de novo na Dona Donica. Noutra extremidade morava o finado Rodolfo e Dona Picucha. Tinham um cachorrão com um latidão imponente, ouvindo aquele latido ao longe, nos, garotos inventávamos que o cão estava dizendo: João-joão-vem-dar-benção-pra-o-vô-vô. O Seu Aires, também vizinho, um pretinho solteirão muito buenacho, fez um sovéu (Laço de couro torcido) para papai, era um artista como guasqueiro (Pessoa que fazia cordas trançadas para a encilha e a lida no campo). Sempre que precisávamos uma mão no serviço lá estava ele solícito. O Florentino e Dona Otilia, O tio Marcirio e Dona Eufrazia. Ele era músico, tinha quase todos os instrumentos em casa. Dona eufrazia e filhas não perdiam um baile. A Sra Donica e o Mita cujo filho Feliz casou com minha irmã. Certa feita um primo da família Neves veio fazer uma visita de pêsames para a Donica, quando morreu o Sr.Mita e na calada da noite foi para um baile na casa do finado Agostinho acompanhado do Bode (Um mulato filho de criação da família, era uma exponja para consumir álcool) no dito baile houve um bochincho muito feio (briga) foi uma correria de homens e mulheres, o Bode perdeu na confusão uma alpargata (chinelo) e calçou outro chinelo vermelho feminino pensando que era o seu. De madrugada vinham chegando, o Neves com o Bode bêbado, que insistia em voz alta: Mas que boochiiincho!!! Cala a boca Bode! dizia o outro. De manhã a Donica encontrou aquele chinelo feminino e queria saber a procedência e tudo veio as claras. Imaginem fazer uma visita de Pêsames e fugir para um baile na calada da noite? Esse finado Agostinho era um caso aparte, as histórias em torno dele, na entrada do inverno quando alguém se gripava ele se jactava nas suas expressões atípicas “Van cês não querem se prificá eu já me prifiquei” tradução: vocês não querem se purificar eu já me purifiquei! A purificação dele era um preventivo contra ao gripe a base de alho e limão. Contavam que mandou a mulher dar meio ovo cozido para o filho bebê que estava com fome e como o baby continuava a chorar de fome ele ordenou: Dá a outra metade, que arrebente esse diabo! Havia uma velha parteira chamada tia Maneca, muito pobre, não havia pensão para as viúvas, ela ia de casa em casa com uma porção de saquinhos e pedia para enchê-los: arroz, feijão, açúcar, erva mate. Era muito desbocada. Na brincadeira ela ia dizendo a dona da casa enche meus saquinhos sua puta. Exame pré-natal e outras cocitas era manga de colete. As mulheres engravidavam e cumpriam sua gestação como a natureza mandava. Igual vaca, ovelha e outros bichos. A parteira já estava de sobre aviso quando chegava a hora, ia-se a galope com um cavalo de a cabresto chama-la, e lá vinha ao mundo mais um Cordeiro. Moveis e utensílios eram para sempre, tínhamos um berço de madeira com duas madeiras curvas nos pés, para embalar o rebento ela havia criado os filhos de tia Chica (irmã da mãe) que não eram poucos, embalou-nos todos e em pleno final do século XX meu irmão mais moço, o Lacy levou-o para criar as suas filhas. 

Terra aonde nasci, ainda pertence a família.









Na próxima sexta-feira, segue mais recordações de um doble chapa.
                                                                                                Nelcy Cordeiro


Até a próxima se Deus quiser...

 Anajá Schmitz