quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Paisagens Perdidas


Autoria: Jayme Caetano Braun

A tarde recolhe o manto,
carqueja e caraguatá;
na corticeira um sabiá
floreia o último canto!
Alargando o gargarejo,
da sanga que se desmancha,
há um eco pedindo cancha
no primitivo falquejo!

A lua nasce num beijo,
prateando o lombo do cerro
e um grilo acorda um cincerro,
do meu retiro de andejo!

Paisagens de campo e alma
perdidas no vem e vai,
soluços do Uruguai
que bebe lua e se acalma:
a noite passa à mão salva,
com ela vem a saudade,
olfateando a claridade
das brasas da Estrela D‘Alva!

Nascem rugas no semblante,
paisagens da natureza
que a força da correnteza
não pode levar por diante;
então exige que eu cante
quando me encontro desperto,
mas sempre que chego perto
meu sonho está mais distante!

Paisagens de sombra e luz,
como é que pude perdê-las?
Ficaram as 5 estrelas
fazendo o “ sinal da cruz “ ! 
































Até a próxima se Deus quiser...


 Anajá Schmitz

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Cusco Baio



Autoria: Jayme Caetano Braun

Entre os amigos que tenho,
Irmãos da lida campeira,
Há um cusco baio coleira
Que vai junto, quando saio.
Botei-lhe o nome de Raio
Pois é um raio de ligeiro,
E não há melhor parceiro
Do que o meu cachorro baio.

Voltava, um dia, do povo,
Ao tranco do meu tordilho,
Assobiando um estribilho
Pra encurtar a madrugada,
Quando ouvi, sobre a calçada,
Um lamentoso ganido:
Era um cusquinho encolhido
Quase coberto de geada.

Sem mesmo apear do cavalo
Peguei o cusquinho feio
E botei sobre o arreio
Onde se ajeitou tremendo,
Parece que até sabendo
Que estava junto de alguém
Que conhecia também
As máguas de andar sofrendo.

Só quem não tem coração,
Ou não tem bom sentimento,
Ignora o sofrimento
Dos deserdados da sorte,
Desses que vagam, sem norte,
À margem da caridade.
Pois sem calor de amizade
A vida é pior do que a morte.

E assim o cusquinho feio
Foi morar no meu galpão.
É um amigo, desde então
Sempre a meu lado presente.
É o afeto permanente
Refletido com ternura
Naquela estranha doçura
Com que um cusco olha pra gente.

Foi crescendo e aprendeu
O serviço de campanha,
E na lida me acompanha,
Sempre ativo e oportuno.
Dá gosto ver o reiúno
Sair de dentro do mato
O mesmo que um carrapato
No focinho dum turuno.

E até parece mentira,
Hoje o antigo cusquinho
Pára rodeio sozinho
Igual ao peão mais campeiro,
Traz boi manso do potreiro
E é de lei – caçando paca
Ou no rasto duma vaca,
Dessas que esconde o terneiro.

Vai comigo, quando saio
Pra cuidar do meu arreio
E até quando carpeteio
Fica ali – a espera do grito,
Sobre os garrões sentadito
Bombeando – cheio de alma,
Como quem diz – muita calma
Que eu não te deixo solito.

Ainda lembro que uma vez
Meu cusco quase morreu
De um coice que recebeu
Dum redomão, na mangueira,
Doutra feita, uma cruzeira
O mordeu – não tinha cura,
Mas com leite e benzedura
Salvei meu baio coleira.

E agora vieram dizer-me
Que um cachorro enlouquecido
Mordeu meu cusco querido
E ele precisa morrer.
Não há mais o que fazer
É a solução – crua e cega –
Mais meu ser todo se nega
A cumprir esse dever.

E ali está o meu cusco baio
Naquele esteio amarrado
Olhar tristonho e parado,
Como a pedir-me socorro
Se matá-lo, sei que morro:
É muita barbaridade,
Pois eu só velho amizade
Nos olhos do meu cachorro

Esses poemas gauchescos retratam nosso modo de viver e nosso saudoso tempo passado, com um estilo todo especial de relatar, com palavras faladas no campo e nas fronteiras de nosso pago, dificultando muitas vezes a interpretação. Ex: certa feita = certo dia.






Até a próxima se Deus quiser...


 Anajá Schmitz

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Chinoca bonita



A maior das gauchadas
Que há na Sagrada Escritura,
- Falo como criatura,
Mas penso que não me engano! -
É aquela, em que o Soberano,
Na sua pressa divina,
Resolveu fazer a china
Da costela do Paisano!

Bendita china gaúcha
Que és a rainha do pampa,
E tens na divina estampa
Um quê de nobre e altivo.
És perfume, és lenitivo
Que nos encanta e suaviza
E num minuto escraviza
O índio mais primitivo!

Fruto selvagem do pago,
Potranquita redomona,
Teus feitiços de madona
Já manearam muito cuera,
E o teu andar de pantera,
Retovado de malícia
Nesta querência patrícia
Fez muito rancho tapera!

Refletem teus olhos negros
Velhas orgias pagãs
E a beleza das manhãs,
Quando no campo clareia...
Até o sol que te bronzeia
Beijando-te a estampa esguia
Faz de ti, prenda bravia
Uma pampeana sereia!

Jamais alguém contestou
O teu cetro de realeza!
E o trono da natureza
É teu, chinoca lindaça...
Pois tu refletes com graça
As fidalgas Açorianas
Charruas e Castelhanas
Vertentes Vivas da Raça!

A mimosa curvatura
Desse teu corpo moreno
É o pago em ponto pequeno
Feito com arte divina,
E o teu colo que se empina
Quando suspiras com ânsia
São dois cerros na distância
Cobertos pela neblina.

Quem não te adora o cabelo
mais negro que o picumã?
E essa boca de romã
Nascida para o afago,
Como que a pedir um trago
Desse licor proibido
Que o índio bebe escondido
Desde a formação do Pago?

Pra mim tu pealaste os anjos
Na armada do teu sorriso,
Fugindo do Paraíso,
Para esta campanha agreste,
E nalgum ritual campestre,
Por força do teu encanto,
Transformaste o pago santo
Num paraíso terrestre!

Para combinar com esta belíssima poesia do saudoso Jayme Caetano Braun mostro meus crochês. Feito sem moldes, inventando pontos. 






Até a próxima se Deus quiser...


 Anajá Schmitz

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Herança

Autoria: Apparicio Silva Rillo
Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos as casas já nasciam velhas.
Naqueles tempos, sim, naqueles tempos, sim,
naqueles tempos as casas já nasciam velhas.
Eram uma casas cálidas, solenes
sob as telhas portuguesas, maternais.
Em pálidos azuis eram pintadas
e em brancos, em ocres e amarelos.
Algumas nem mesmo tinham reboco. Na
carne dos tijolos mostravam-se nuas,
abertas em janelas que espiavam
da sombra verde para o sol das ruas.

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
tinham balcões e sacadas essas casas
e úmidos porões e sótãos com fantasmas.
E tinham jasmineiros sobre os muros
e acolhedoras latrinas de madeira
disfarçadas entre as plantas dos quintais.
E laranjeiras e galos e cachorros
um barril barrigudo cheio d'água
e uma concha de lata para a sede.
Nas varandas que eram frescas e abertas
a moleza da sesta numa rede...

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
as portas eram altas
e alto o pé-direito das salas dessas casas.
Mas eram simples as pessoas que as casas abrigavam.
Os homens chamavam-se Bento, Honorato, Deoclécio,
as mulheres eram Carlinda, Emerenciana, Vicentina.
Os homens usavam barbas e picavam fumo em rama,
as mulheres faziam filhos, bordados e rosquinhas.
Os homens iam ao clube, as mulheres À missa,
e homens e mulheres aos velórios.
Morriam discretamente e ficavam nos retratos.

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
a igreja tinha santos nos altares
e havia mulheres rezando ao pé do santos.
O padre usava uma batina cheia de manchas e botões,
batizava crianças, encomendava os mortos,
rezava a missa em latim: "Agnus Dei"...
e comia cordeiro gordo na mesa do intendente.
Os homens ajudavam nas obras da igreja,

mas acreditavam mais nas armas que nos santos.

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
os chefes eram chamados "coronéis".
Ganhavam seus galões debaixo da fumaça
em peleias a pata de cavalo,
garruchas de um tiro só e espadas de bom aço.
As mulheres plantavam flores e temperos
pois tinham mesma valia o espírito e o corpo.
Sabiam receitas de panelas fartas,
faziam velas de sebo e tachadas de doce
e de graxas e cinzas inventavam sabão.

Naqueles tempos, sim,
naqueles tempos
os bois mandavam nos homens,
e por isso a vida era mansa na cidadezinha
arrodeada de ventos, chácaras e estâncias.
Os touros cumpriam devotamente o seu mister
e as vacas, pacientes,
pariam terneiros e terneiros e terneiros.
O campo engordava os bois,
as tropas de abril engordavam os homens
e os homens engordavam as mulheres.

Por isso a cidade chegou até aqui.
Por isso estamos aqui
- netos e bisnetos desses homens,
dessas mulheres, netas e bisnetas.

Por isso um berro de boi nos toca tanto
e tão profundamente.
Por isso somos guardiões de casas velhas,
almas de sesmarias e de estâncias,
paredes que suportam seus retratos.

O músculo do boi na força que nos leva.
A barba dos avós como um selo no queixo.
O doce das avós na memória da boca
e nela este responso:

- Naqueles tempos, sim, naqueles tempos...




Até a próxima se Deus quiser...


 Anajá Schmitz




terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

CORRIDA DO DIA A DIA


Olá queridos amigos! Espero que todos estejam bem e felizes. Por aqui o período é de férias. Nós que trabalhamos por conta e risco, temos como descanso somente os finais de semana. Sempre correndo e sem tempo para nada, mesmo vivendo no campo. Trabalhamos na cidade, que fica a uns 10 km de casa, mas almoçamos em nossa morada todos os dias. Geralmente faço somente o mesmo cardápio. Carreteiro. Às vezes sai um lance diferente. Essa salada foi o prato principal. Que delícia! Eu que não sou fã de salada, adorei. 
Salada Mistureba
02 xícaras de repolho cortado grosso;
0 xícara de rúcula;
01 xícara de manga cortada em tiras;
1/2 xícara de maçã cortado em tiras;
02 colheres de sopa de passas;
sal, limão e azeite de olivava para temperar;

Misture tudo num refratário e tempere a gosto. Inventei essa salada por causa de um fato. Na minha família as mulheres cortam o repolho bem fininho. E quando era minha vez, eu cortava um toletão grande. Nunca consegui cortar fino sem cortar os dedos também. Com isso não mais cortei repolho na casa de minha mãe. E quando alguém da família via alguma salada cortada com tiras grosseiras, todos perguntavam se fui eu que cortei a salada. Todos adoraram minha invenção, mas ainda falam do corte do repolho.





Até a próxima se Deus quiser...


 Anajá Schmitz

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Forno de barro


Mais uma invenção de Alfredo. Sempre falávamos sobre fazermos um forno de barro, até que um dia ele enlouqueceu e começou a fazer ele mesmo com ajuda de nosso filho. Como na foto mostra, foi feito nos finais de tarde quando chegávamos do trabalho. Alfredo queria assar o peru de natal e mandou brasa. Agora falta terminar os detalhes. Esses detalhes são minha aflição.  





























Até a próxima se Deus quiser...


 Anajá Schmitz